domingo, 27 de novembro de 2011

Menino de Giz

Todo entardecer era a mesma coisa, o menino descia as escadinhas do seu pequeno apartamento onde morava com os pais, ia até o beco ao lado de sua casa e ficava observando defronte o paredão que lá se encontrava.
Na mesma hora, o menino descia, todos os dias, era metódico, ou melódico? bem não sei, sei que ele ia e vinha, e ficava, sempre à observar o paredão.
Não era dessas paredinhas pequenas, onde se passa uma perna depois outra, pronto, foi-se, era um paredaço, grandiloquente  cheio de tijolos bem sobrepostos, um paredão, feito de sonhos alquebrados.
Em um dia frio, desses de se por casaca, o menino desceu a escada depressa, ficou novamente defronte para o paredão, inspirou longamente, segurou por alguns segundos, e então assoprou, sopro de liberdade, de vontade de ir além, era sopro de quem cansara de ficar ali.
Num instante tudo parou, o vento cessou só para ver o que acontecia, e quando me dei conta, o incrível acontecera, o paredão se desmanchara no ar, era feito de giz, tão bem desenhado, delineado, tão real quanto algo irreal pode ser...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quieto

Tenho as notas por confidentes, e sempre lhes digo:

Esse silêncio anda fazendo eco no meu peito.

Pra lá.

Lá fora passa a música que quero ouvir, e eu sem tempo para ouvi-la,

Lá fora passa os livros que eu quero ler, e eu sem tempo para lê-los,

Lá fora passa as horas, e eu aqui sem tempo no tempo.

Lá fora passa tudo, e eu sem nada.

Só espero que lá fora não passe a vida, e eu não possa vivê-la.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Humano.

Escrevo, não para me engajar socialmente, me encaixar nos meios intelectualóides, aspirar riquezas inimagináveis (inimagináveis mesmo, com a situação da literatura em nosso país).
Escrevo, não por sensibilidade exacerbada, por amarguras passadas, amores não correspondidos, situações existencialistas, ou outros dos tantos clichês que enchem meus olhos todas as vezes que invento de ler algo novo, contemporâneo.
Escrevo, não por amor ao próximo, por condolência da humanidade, por esse ou aquele motivo específico, que se torna, tão banal, e perde-se no vácuo literário.
Escrevo não pelas linhas, pela lírica, pelos poetas.
Escrevo pela necessidade de sentir nas linhas na lírica nos poetas toda a minha humanidade
Por vezes tão desumana.

Areia

Mato bem matado,
Quem morto já estava,
Ato bem atado.
Quem no meio se encontrava.

Meios não são aceitos
Ou inteiros, ou nada são,
Mato também os perfeitos,
Que no fundo não estão.

Nem cá, nem lá
Sem eira nem beira
Levem, bem pra acolá
Passem os pseudos na peneira.

Só sobra areia,
Dessas de jogar nos olhos,
E enganar essa gente alheia.

Menininha.

Quando se nasce nas asas do vento,

Não é qualquer corrente de ar que nos impressiona,

É preciso, por vezes,  tormenta das grandes para virar

Uma só página do meu livro.

Já em outros entardeceres,

Sopra uma menininha tremula,

E despenca toda minha biblioteca.