segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Encontro marcado.


Certo dia andava por uma dessas ruas da cidade, era uma noite deliciosa, cheiro de suavidade no ar, simplicidade de alma. Andava envolvido em meus pensamentos, embolado em teorias, de como ser e por que ser, não prestava atenção aos passos que me acompanhavam, sentia apenas a bela noite e meus pensamentos. Virei em uma viela ,repleta de arvores em suas calçadas, não podia deixar de reparar no vento que me conduzia, ele também conduzia a imobilidade dessas arvores, eu sabia disso, nasci sabendo.

Sentindo o perfume continuei pelo caminho, surpreso por onde meus pés me levavam, virei novamente e me deparei com uma praça, essas com grandes arvores e alguns bancos de cimento, o lugar era puramente contrastante, um lindo lugar em meio ao meu pérfido mundo, a força das raízes quebraram parte do concreto da praça, aquilo intrigava-me eu não sabia o porque.

O mais surpreendente desta noite ainda estaria por vir; sentei em um daqueles bancos gelados pela falta de vida de si, então abaixei minha cabeça e voltei meus pensamentos novamente para a vida, não apenas a minha vida, mas a vida do mundo todo, os sentidos, os sentimentos, os humanismos, os grandes e pequenos humanismos, dei um apelido carinhoso para os erros e acertos de nossa humanidade, ambos representam o que chamo de humanismo, fiquei neste estado semi-meditativo por uns instantes, mas algo repentino me acordou do transe, o culpado por isso era o toque de uma mão humana em meu ombro. Rapidamente levantei a minha cabeça e me deparei com a bizarrice mais bizarra de todas, quem estava a minha frente era nada mais nada menos do que a minha pessoa, em carne, osso, e espírito, a diferença eram as roupas, só, apenas isso. Quando me deparei com aquela imagem, tive duas reações totalmente opostas, no primeiro momento meu corpo foi tomado pelo choque daquela imagem, e no instante seguinte a conformidade tomou conta do meu ser, era como se eu soubesse deste encontro, lembrava um encontro entre amigos, algo combinado antecipadamente.

Eu me cumprimentei com um olá, apesar de conformado ainda assim soou vago, o meu outro eu respondeu com um olá acalorado, este olá despertou minha curiosidade, nos olhos do outro, existia um brilho que faiscava minha alma.

Ele se sentou no chão ao lado do banco e de costas para uma árvore, fez com a mão um pequeno gesto, que significava um convite para sentar ao seu lado, levantei e fui até o seu lado, sentei , estiquei as pernas para frente às cruzei e apoiei minhas mãos ao chão e me preparei para a conversa que viria a seguir, o que será que eu tinha para falar pra mim?

Ele então começou a falar com a minha suave voz, eu sei o que te aflige, sei o porquê das suas perguntas, e o que mais nos interessa; tenho resposta para varias de suas questões, peço que feche os olhos comigo, e sinta o mundo ao seu redor, só por um instante.

Por um momento fechei os olhos, senti novamente o vento noturno em meu rosto, e não senti mais nada, impaciente como sou, abri os olhos e lancei mão de uma pergunta para mim, o que eu deveria sentir, ele então virou para mim e disse, não esperava que fosse entender logo de cara, deixe te explicar, fechamos os olhos e já respondemos a uma pergunta, sem nem ao menos perceber, sentimos o vento em nossas faces, isso significa que estamos vivos, você está vivo, encontramos então a resposta para a tantas outras questões, se estamos vivos, todas as soluções do mundo dançam a nossa frente, basta enxergá-las, estamos vivos.

Em toda a nossa vida procuramos em que acreditar e por que acreditar, o que seguir , o que é verdade, e o que deixa de ser, esquecemos o mais importante, a beleza da vida em si, como seremos vazios se deixarmos de enxergar as belezas de uma vida, ele deu uma pequena pausa, deu um sorriso de canto de boca, e continuou, vê está árvore a nossa frente? Os unicamente racionais enxergam ali apenas uma espécie de árvore, simples assim, para um poeta está mesma árvore tem uma infinidade de significados, um apenas olha para vida de forma mecânica, o outro enxerga a vida como algo sublime, ama a vida e deseja vive-la como deve ser. Tentei por um momento gravar todas aquelas palavras em minha mente, mas como poderia? Elas já estavam marcadas em minha alma, você nunca, jamais, esquece uma conversa consigo mesmo.

Ele percebendo o quanto aquelas palavras me agradaram, continuou falando então, se eu que sou você entendo o quão simples a vida é, você obviamente também entenderá, não existem ingredientes secretos para se viver, tudo é claro como o dançar das ondas, diria que a essência da simplicidade seja realmente a vida, se pararmos um instante entenderemos o mundo, não existem barreiras que não possam ser puladas, essas barreiras nos tornam homens, homens reais e não os príncipes de contos de fadas, eles não existem.

Apesar de tudo os valores mais nobres estão em atos como segurar uma mão, apoiar com palavras, aliar-se ao olhar, amar sem racionalidade envolvida, segurar, agarrar, até mesmo gritar quando necessário, e tudo isso faz parte da mais nobre arte, a simplicidade.

Poderia entrar noite adentro falando sobre o mundo, e sobre como nós o vemos, mas não posso, seu tempo é curto e não posso lhe segurar aqui, sua vida esta passando agora mesmo, diante de seus olhos, agarre-se a cada instante, e aproveite cada minuto com sabor de uma eternidade, não duvide, apenas faça.

Terminando estas palavras nós dois nos levantamos, olhamos um para o outro, dei a mão para ele em sinal de despedida, ele sorriu para mim, bateu em meu ombro e saiu caminhando pela praça até chegar à rua, em um instante mais já não estava ali, eu apenas sorri em retribuição, voltei para minha viela com árvores, e por um instante acordei e percebi, estava vivo, apenas vivo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Existência.


Olá

Gostaria de apresentar-me a você, mas não posso, não insista; se tanto quer, irei-lhe dizer.

Sou simplório como uma folha, em apenas uma folha jaz tudo que o sou, e tudo o que poderei ser,

Essa simplicidade está descrita em minha caminhada.

Não sou incrível, pois nunca saltei de um penhasco apenas pra sentir a brisa em minha face, mas o vento da liberdade tem o mesmo gosto.

Nunca deixei levar-me pelas ondas, e nem por isso não conheço o frescor da água.

Não criei nenhuma teoria incrível, que pudesse mudar o rumo da humanidade, mas nem por isso não conheço o caminho para onde vamos.

Nunca fui engraçado como um humorista, ou belo como um Adônis, mas sei fazer brotar o mais sincero sorriso, e o mais brutal dos sentimentos.

Andei por ruas e lembrei, nunca conquistei nações, não cheguei ao ápice do poder, e o incrível; nunca desejei isso.

Percebi que não canto como os anjos, e não escrevo como o destino, mas arrisco os dois sem medo de errar,

Não recebo o que desejo em todos os meus pedidos, mas não deixo de pedir, que graça teria se ganhasse tudo que desejo? O futuro se tornaria areia ao vento, sem objetivo algum,

Agora reconhece o que eu represento? Sou o nada, o tudo, o passado, o presente, o futuro, o instante, e a eternidade,

sou a extensão de mil vozes, sou algo como o sol nascente, o inverno incessante, a calmaria das águas, a profundidade dos abismos, o pico dos montes, sou todas as sensações, todos os sabores, os odores, os sentimentos,

tudo está em mim e estou em tudo, estou presente no vazio, talvez agora me conheça? Sou simples, complexo, diferente, e igual a tudo,

sou a paixão, o amor na sua forma pura, para alguns estou em cada um desses lugares, ainda para outros estou no vibrar das cordas do instrumento.